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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A vida começa aos sessenta, e as contas?


1996... Estampado na placa de metal disposta milimetricamente acima da soleira da porta, mais que enfeite para o seu escritório, a retratação de sua importância na ocasião... “para isso servem os prêmios”.

Impulsionando o corpo leva a cadeira para frente, aproximando-se da entrada e da placa onde se pode ler seu nome, e para trás, distanciando-se... “Faz tanto tempo!”

-- “O que importa é viver o agora”.

Nem sempre pensou assim, mas agora, amadurecida, não lhe é possível esquecer as atribuições do hoje. Os papéis sobre a mesa a conduzem, embora sem pretensão, a refletir sobre o seu cotidiano:

A última edição daquela revista! Teve que cancelar a renovação da assinatura depois de tantos anos. Não era tão cara, mas era mais uma dentre várias. “Tudo bem, não era importante”, justifica-se. Servia apenas para distração e atualização, “nem estou mais lecionando!”

No bilhete, seu  neto pede novamente um par de tênis: “Um por mês? Tem pés de faca!".Imagina que se não tivesse internet, teria de vaguear por lojas com o fedelho, escolher, experimentar, desistir, recomeçar. Gastaria mais e muito mais tempo também. “Pelo menos está mais fácil fazer suas vontades”.

Pega o extrato de sua conta em cima de umas revistas velhas. Confere a cobrança da taxa de serviço. Paga para guardar o dinheiro que é seu. “Não deveria o banco me pagar um percentual para eu movimentar meu dinheiro nele? Eu que pago!” Pensa que o banco lhe deveria retribuir, mas não, cobra cada vez mais taxas, e abusivas: “Tarifa de aviso automático. Que avisos são estes?”. Não se lembra de ter sido avisada de nada.

Tem sua pequena “fortuna” no mesmo banco há 35 anos, na poupança. Rende abaixo da inflação. Quando pediu orientação ao gerente recebeu uma “empurrada” de produtos que cumpririam as necessidades dele, não as suas, e desistiu.

Soma a aposentadoria com a pensão do marido morto, tudo minguado!  Lembra das pessoas que acham abusivo receber aposentadoria...”fiz tanto para merecer este benefício.” Pensão de pai falecido recebida pelo funcionalismo concorda que é abusiva, mas pensão de marido não! Nem pode prescindir deste valor.

Guarda na caixinha um extrato da conta cancelada pela manhã.  A conta só dava despesas. Foi pessoalmente ao banco, esperou 30 minutos para ser atendida. Motivo do fechamento? “Vocês demoram para atender”. Resposta da gerente constrangida: “Demorei para te atender né?!” Sente-se vingada, além de ter se livrado de tentativas de permanência.

Telefonia, uma pequena fortuna “mas o número fixo é antigo, toda a família e os amigos o conhecem”, justifica-se, buscando uma possível desvantagem para encerrá-la, embora o telefone raramente toque. Promete entre botões que pensará nisso e decidirá o que fazer depois. É um dos seus casos crônicos de procrastinação.

Contas, contas. Tem que ter também celular? Se fica em casa a maior parte do tempo porque não atender no fixo? E se está fora, precisa mesmo estar disponível? São estas as benesses da modernidade? Mais contas a pagar.

A TV tem que ser a cabo pois a imagem é ruim mesmo com antena. Os canais abertos nem pegam. O que estará acontecendo? Mercado da imposição? O pacote básico faz jus ao nome. Decidiu não ampliar seus canais, não justificam o preço dada a quantidade de tempo que vê televisão. Paga apenas para ter imagem decente. "Diferente de antigamente, era só subir no telhado e girar a antena". Ri da lembrança.

-- Imagem de qualidade não deveria ser obrigação da transmissora? Tenho que pagar a parte?

Cartas pedindo dinheiro para causas sociais. Crucifixo com seu nome como cortesia, pedindo contribuição. Fotos de crianças chorando famintas com números alarmantes de desnutrição e violência infantil. Terá que doar R$ 40,00 por mês para que o “pequeno Bruno tenha a chance de sobreviver” e outros famigerados tenham assistência digna.

-- Mas não é para isso que pago impostos?  Quase 50% de minha renda, e ainda tenho que pagar para ter os serviços elementares.

Continua o trecho da carta audaciosa: “Não temos o direito de negar o futuro a uma criança. Por isso, reagimos”,  E os meus direitos?  Pensa com revolta.
-- Reagem cobrando de quem paga impostos? Do trabalhador que deveria ter direitos garantidos?Não entendo essa lógica!

O preço da energia elétrica só aumenta, e ao consumi-la tem de pagar “adicional bandeira vermelha”. A lógica de mercado de um produto que é básico, mas não se pode consumir de acordo com a necessidade do cliente, é uma das coisas que a deixa pensativa. Tenta entender.

Carnê do convênio. Pago, e bem pago. Agora faliu! Pagou em dia para que em caso de precisão não tivesse que depender de assistência pública. Dançou!

Impulsionando o corpo leva a cadeira para frente, afasta todos aqueles documentos, papéis, extratos, cartas, revistas.

Impulsionando novamente o corpo leva a cadeira para trás, distanciando-se... Coloca os dois pés sobre a mesa, dobra os braços frente ao peito, olha para o teto, respira...

-- O que importa é o amanhã. A vida começa aos sessenta.

sábado, 12 de setembro de 2015

Network e cozinha ambulante


Sugeriu que comessem "aquela feijoada!" que sabia estar de acordo com os 3 B's. Perdeu. Ganhou a sugestão: "Vamos na esquina, a loira é sempre gelada".
 
Não sabe falar sobre Frazão, periguetes e outras bombadas, nem toma cerveja com caipirinha. Também não gosta de comer PF. Caiu de paraquedas na busca do tal do network: o sociólogo, a psicóloga, duas pedagogas e ele, um administrador.

Psicólogas “vivem em crise”, pedagogas ou “são doidas ou muito certinhas”, e administradores são “chatos”! Pelo menos segundo opiniões próprias lançadas à mesa.

Administrador é como consultor 24 horas. Notou - e comentou - a falta de consistência do molho, a ausência de cor no frango, o “destempero” do feijão, sem contar o fraco atendimento.

Pior ainda, um administrador com olfato exagerado, que se frustra ao prever que uma hora depois, ao sair, levará nas roupas e cabelos o odor da fritura impregnado no ambiente. Cozinha ambulante.
 
Se pergunta: mais vale sozinho uma boa feijoada que muitas fritas  mal acompanhado?
 
As discussões sobre a qualidade da educação? O mercantilismo no setor? As patologias sociais? Nadica de nada!
Quanto a discussão sobre autores – clássicos ou modernos? Nada!

Sobre a sexualidade dos colegas e dos professores? Tudo o que externam as más línguas, e até mais!

Sobremesa: salada de frutas velhas. É a “gota d’agua”!

O que resta? Sorvete, então! Rendido à industrialização algo o satisfaz neste almoço memorável.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE RECURSOS EDUCACIONAIS ABERTOS.


Caros amigos leitores,

Na Câmara dos Deputados em  Brasilia, deu-se hoje o evento Seminário Internacional sobre Recursos Educacionais Abertos.
Proposto de forma conjunta pelas Comissões da Cultura e da Educação da Câmara dos Deputados, nas figuras do deputado Aliel Machado (PCdoB/PR), da Comissão de Educação, e da deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ),  da Comissão de Cultura, o evento foi aberto para parlamentares, acadêmicos e sociedade civil para debater os Recursos Educacionais Abertos.

Contou com o apoio do projeto REA.br, de políticos que defendem a abertura e democratização do conhecimento, e com especialistas internacionais na implantação  de políticas  públicas de  REA nos  Estados Unidos e na  Europa. 

Diversos expositores que atuam em educação compartilhada, ou aberta, apresentaram dados sobre o movimento de educação aberta, números e evolução do tema na sociedade e na academia:

ü  Carolina Rossini - Fundadora do Projeto REA.br e Vice-Presidente da Public Knowledge

ü  Hal Plotkin - Consultor de Políticas Abertas do Creative Commons nos EUA

ü  Priscila Gonsales - Diretora-Executiva do Instituto Educadigital (comunidade REA no Brasil, iniciativas de política pública e criação do Manual REA para gestores públicos)

ü  Tel Amiel - Coordenador na Unicamp da Cátedra Unesco em Educação Aberta

ü  Camila Garroux - Coordenadora de Pesquisa no Centro de Estudos das Tecnologias da Informação e Comunicação

ü  Sebastian Gerlic - Representante da Índio Educa (iniciativa REA de educação indígena)

ü  Fernando Almeida - Diretor do Departamento de Orientações Técnicas da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo

ü  Nelson Pretto - Professor-Doutor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia

No encerramento ainda houve a fala do Grupo ônibus hacker e fast food da política, mostrando o protagonismo dos jovens na política e no uso da tecnologia.

A mesa foi alterada diversas vezes para atender ao conjunto de temas tratados.

Os vídeos e áudios das apresentações e debates estão disponibilizados na página da Câmara.
http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/webcamara/aoVivoSinais?codReuniao=40439

Durante o evento foi aberta uma sala de bate-papo pelo portal e-democracia, um portal para a sociedade participar dos debates dos projetos de lei e propostas da Câmara dos Deputados.


Abaixo síntese de algumas ideias transmitidas pelos diferentes oradores:

Segundo Priscila Gonsales a Lei de Direitos Autorais considera pública uma obra após 70 anos da morte do autor, portanto cópias de livros ou capítulos, é crime. Também colocar vídeos no seu blog ou site, mesmo citando a fonte.

O que tem que mudar é a lei, pois é melhor o professor criar sua própria apostila do que usar um livro capitulo a capitulo, que não adere ao conteúdo desejado. É mais inteligente colocar no material partes de livros e autores selecionados, mas é crime, enquanto não se debate e muda as leis de direitos autorais. No Brasil direito autoral é permanente e não pode ser doado.

Porém, pode-se licenciar o conteúdo criado através do Creative Commons.

As universidades devem pensar a diferença entre conteúdo gratuito e conteúdo aberto.

Curriculo não é o que ensinar mas que país eu quero como conhecimento do cidadão participante da sociedade. Precisamos gerar emponderamento dos jovens e dos recursos.

Fernando Almeida  lembrou que no sistema capitalista o trabalho gera propriedade, a educação aberta rompe com isso pois existe em benefício de todos tirando a propriedade de alguns, assim, é uma “briga” política. Principalmente com as editoras de livros didáticos.

O princípio dos Recursos Públicos é o direito de todos.

Nelson Pretto afirmou que as tecnologias são formas de escrita do mundo moderno. O livro didático era o veículo principal para levar o conhecimento, mas feito localmente excluía as regiões distantes dos centros, que permaneciam impondo sua cultura.

Hoje não somos consumidores mas devemos ser produtores do conhecimento que pode ser distribuído de forma regional para planetária.

As políticas de livros didáticos alimentam as editoras que vendem conteúdo fechado, sem acesso as fontes.

Na UFB – Univ. Fed.da Bahia após 6 meses de impresso pela sua editora, o livro é publicado  no ambiente on line.

Hal Plotkin – hplotkin@plotkin.com conta que saiu da escola aos 16 anos por não ter dinheiro para estudar, sua irmã saiu aos 14 anos. Uma noite leu um artigo que afirmava que os alunos abandonavam a escola por serem preguiçosos ou drogados. Indignado escreveu a lápis para o jornal contradizendo o texto, pois ele trabalhava numa pizzaria e foi empurrado para fora da escola devido ao sistema econômico, por ser pobre. Era vítima do editor por não ter dinheiro. Ele ganhava US$ 1,5 a hora para cortar cebolas, e o editor que foi conhece-lo, pagou US$ 50 para publicar sua carta. Assim nasceu seu lado escritor e virou jornalista. Estudou a noite numa faculdade comunitária, depois foi convidado para presidi-la e a outras entidades. Foi convidado pelo governo Obama para atuar na Educação Aberta, administrando projeto de 1 bilhão de dólares.

Relata que apenas 6,7% das pessoas no mundo tem ensino universitário, isso é uma oportunidade para a educação digital.  Segundo pesquisa do BID e Japão, uma menina ganha 20% mais de renda para cada ano de estudo e o menino de 10 a 15% mais.

Falou ainda que o MIT OpenCourseWare  foi a primeira universidade a liberar suas aulas na rede, recebeu dez milhões  de  dólares do Obama para os professores criarem as aulas, para a infraestrutura, etc. Quando a verba acabou o MIT continuou com o projeto bancando por conta própria, porque? Descobriu-se que os seus alunos preferem estudar no MIT pois tem o material didático gratuito na rede, o que gera vantagem competitiva do MIT, mais atração de alunos. O livro no USA é caro, pode chegar a US$200, e tem alunos que não podem comprá-los.

Citou pesquisa que mostra que quanto mais o professor se envolve em criar seu material de aula, mais feliz e confiante ele se sente.

Este palestrante iniciou sua fala com uma afirmação de fé, que propositadamente deixei para o final do post por compactuar com sua verdade. Diz que trabalha movido pela fé. “Fé nas instituições democráticas, embora nem sempre nas pessoas que a representam. Fé em Deus de que temos um papel no mundo que não é levar coisas para o túmulo. Não somos quantos recursos acumulamos mas o que fazemos para a sociedade em geral no nosso trabalho.”

Assim, a educação aberta devolve a esperança de que o indivíduo terá um futuro melhor para poder progredir, é mais que química, biologia, português, é esperança.

Enfim, estamos no Inicio da transição da era digital, e o REA contribui com a transformação.

 Portais e endereços digitais referenciados durante o evento que podem ser pesquisados:

·         Instituto Educa Digital  - http://www.educadigital.org.br/site/

·         Pesquisa TIC – educação: TIc nas escolas brasileiras – do Cetic.br


·         Nic Brasil – sobre tecnologias digitais  - http://www.nic.br/

·         Egi.br – governança na internet - http://egi.nic.br/ e http://www.cgi.br/

·         Engeduca – cursos de engenharia e arquitetura a distancia -  http://www.engeduca.com.br/

·         Licenças de produção - https://creativecommons.org/

·         Catedra em educação aberta da Unesco e Unicamp - http://educacaoaberta.org/

·         Design Thinking - http://www.dtparaeducadores.org.br/site/

·         Djangogirls – Petra – recolhe mulheres para estudar na net - https://djangogirls.org/

·         Comunidades indígenas na net - Sebastian Gerlic  - http://www.thydewa.org/# e http://www.indioeduca.org/

·         Praticas colaborativas de RAE - http://www.livrorea.net.br/livro/home.html

·         Escola digital – plataforma digital - http://escoladigital.org.br/

·         Open access button  - recurso google para localização de pesquisas científicas

·         Roer4D – Pesquisa sobre RAE - http://roer4d.org/

·         REA - http://www.rea.net.br/site/

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Setor em batalha


Abril, 07 – 17h

Dez minutos atrasado. Vou direto à enfermaria. Café após água e W.C. “Chá de cadeira”.

A tarde estava agitada, enfermeiros passavam constantemente no corredor para responder a convocações de seus encarregados ou diretores.

Cada empregado que aguardava no corredor tornava-se meu companheiro de “turno”. Vários chegaram, passaram e se foram, atendidos ou não. Eu esperava enquanto repassava as perguntas para a entrevista.

Ganhei uma revista da recepcionista. Na capa, seu chefe. Corajoso lutador aponta o slogan. Nascem novas perguntas. Não ao filantropo, mas ao empresário de um setor em batalha.

Uma hora e meia depois decido cancelar. Aproxima-se meu horário de trabalho, e ainda precisava retirar as fotos e as reprografias no laboratório.

Informo decisão e agenda é remarcada para o dia seguinte, pela manhã, às onze. O chefe envia recado pedindo para eu esperar, quer me cumprimentar. Provavelmente sente-se incomodado pelas três últimas reuniões terem sido canceladas e talvez queira se desculpar. Eu havia perdido 5 longas horas de espera alternada. Muita gentileza de sua parte. Homem de respeito!

Enquanto o aguardo encontro a outra chefe, a de número quatro: “Tenho lugar para você, topa?”. Proponho reunião para conversar, saber o teor da oferta. “Quando podemos?” Rápida, me oferta 20 h a mais de trabalho em outra repartição. “Vou te indicar na APCA. Quase certo!” Diz que é pegar agora ou largar para sempre. Pego! Pedirei demissão de Jandira. Ergue os braços para cima, em sinal de vitória, punhos cerrado e sorriso aberto: “Ai, que bom!”. Sai feliz. Trinta segundos para otimizar o emprego.

Ao virar as costas o “chefe” aparece no corredor, abraça-me, pega minhas mãos segurando-as simultaneamente, senta e começa a se desculpar.

Explica estar envolvido em uma situação com o Ministério, que terá impacto na vida de seus netos, e na dos meus, e que está enfrentando sozinho uma batalha contra nova regulamentação que vai “bolivarizar” tudo. “Querem garrotear o setor!”

-- “Estou em um grupo. E até meus pares foram contra mim, os seis. Acabei convencendo-os da minha posição e conversamos com os políticos, acertamos um acordo. ”

Conta que o texto chegou hoje da cúpula e ele encontrou muitas diferenças entre o “combinado e o aprovado”.

-- “Passei o dia ligando para stakeholders para mostrar que o texto está errado. Um desgaste! O diabo mora na gráfica!”

Afirmo que dada a sua importância não precisava se justificar, não me incomodo “eu entendo”.

“Então, nos vemos amanhã”. Assim termina nossa curta conversa, eu como ouvinte, como sempre. Logo volta-se à recepcionista perguntando pelo Dr. X, Fulanos W e Y, se estão “na casa”. Parece que precisa falar com todos. E rápido.

Metendo-me na conversa, sem ser chamado, respondo que os vi, todos estão “lá dentro”, e aponto. O “chefe” ágil e vermelho lá entra fechando a porta atrás de mim.

sábado, 11 de julho de 2015

Radial Leste, a moto e o espelho por ela quebrado.

Olá amigos do blog Feliz da Vida! Satisfação em tê-los comigo.


Tarde fria de um inverno que está só começando, e parece querer mostrar a que veio.

Acende outro cigarro, que a tempos portava entre os dedos, e fuma-o mantendo o braço esticado para fora do carro, estratégia para diminuir o odor interno e evitar discussões.  

Espera o farol que não se apressa em abrir, acompanhando o movimento da fumaça, ora solta pelo canto esquerdo, devagarinho, com a boca torta e sem pressa, ora baforando para o alto, ritimadamente. Quantas caretas por um “bom cigarro”. Repentinamente vê a esposa aos berros amassando com fúria o maço escondido que encontrara. Despertado por sorte pelas buzinas que ouvem atrás de si, joga fora o cigarro, correndo, sacudindo a cabeça para se livrar da lembrança!

Lentamente se movem os carros nas quatro fileiras, alternadamente, e aquelas motocicletas infernais buzinando loucamente, aparecem por todos os lados. Uma, duas, cinco, quantas! Parece uma invasão, o mundo todo tomado. À direita, à esquerda, à frente, atrás, "se deixar sobem em cima"! Sente-se ansioso. Encosta a cabeça no banco de couro, tenta relaxar. “Pelo menos o carro é automático”! Sorri feliz com a recente escolha. A que preço? Não é o momento de pensar em dinheiro. “Melhor pensar em outra coisa”.

Ouve um barulho forte enquanto o carro sacode um pouco. Ouve o som de algo batendo no chão. É seu espelho esquerdo, arrancado por um dos tantos motoqueiros que passam espremidos entre os carros. Claro que não irá parar, nem pedir desculpas. Pagar o prejuízo? Milagres não mais acontecem, pensa. Suspira profundamente, sentindo um aperto no coração! "Tempos difíceis"!

Sem elucubrar, abre a porta, sai do carro afastando-se um metro e pega no chão o espelho que  está com um dos cantos esfacelado.  É meu! Olhando em volta, percebe que o motorista ao lado fica parado, sem gestos, sem sorriso, olhando para o chão enquanto andam os carros à sua frente. Acompanha o olhar do vizinho, é o suporte do seu espelho caído cerca de dois metros, intacto.

Deixando a porta aberta para segurar o trânsito atrás de si, desce novamente, caminha até a peça plástica, apanha-a sem verificar seu estado, caminha de volta, e acena para os outros carros, agradecendo num gesto, por terem esperado com paciência. Percebe ainda que sua caneta caíra do bolso neste movimento, contorna seu corpo magro, abaixa-se novamente para pegá-la, presente de aniversário. "Mais cara que o espelho".

Coloca tudo que é seu no colo, sentindo-se feliz pelas “aquisições”.

Percebe agora o risco que correra. Havia parado por instantes duas pistas da movimentada avenida, sem ouvir nenhuma buzina ou palavrão por isso. Não passara nenhuma moto. Absoluto silêncio. O mundo parara para atendê-lo. "Que gente amável"! Espera que tenham entendido a gratidão expressão por seu braço estendido.

Liga o carro e todos saem acompanhando-o como num cortejo, que poderia ver se tivesse o espelho.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Cavalo de pau

Amigos do Blog Feliz da Vida! É um prazer estar com vocês leitores. Obrigada pela leitura.


À noite o cachorro pede para passear. Finjo ignorar, a temperatura é baixa lá fora. Alheio a meu fingimento, chora. Eloquente, faz-me levantar lentamente do sofá que de mim não quer sair. Chaves, porta, coleira, portão, desafios preguiçosos.

Um carro de polícia passa devagar sentido à favela, faróis desligados. Curioso!

O passeio transforma-se em oportunidade para xeretar o comportamento dos guardas. Descemos rápido despertados pelo meu interesse.

Já estão voltando, ainda devagar, ainda no escuro. Distância de quatrocentos metros.

No sentido contrário um carro “canta pneu”, fazendo dois pedestres pularem para a calçada em busca de proteção e movidos pelo susto. Dá um “cavalo de pau” (aparentemente foi o momento em que identificaram o carro policial no escuro em seu sentido) fazendo meia volta volvendo-se para o caminho de onde vinham. Muito acelerado vira a primeira rua próxima, descendo para à favela.

O que havia ali? Quem estava no carro, que sendo velho despertou a noite com muito barulho?

Olho simultaneamente para o sentido contrário imaginando iniciar-se uma perseguição policial, daquelas vistas em novelas. Os policiais aceleraram o carro, ligaram os faróis e correram ao encalço dos suspeitos? Observo a cena.

Passa por nós o carro da polícia, ainda devagar, ainda com faróis apagados. Nele, dois sujeitos como que entorpecidos olham para a frente, na direção exata de onde os suspeitos fogem a distância de apenas seiscentos metros.

Não se tratava de um sonho, apenas um passeio com o cachorro, assim, manifesta-se a pura realidade. Provavelmente eram outros seus interesses.  

sábado, 4 de julho de 2015

Aprendi de ninguém

Amigos "notúrnicos" do Blog Feliz da Vida! Férias! Ah! Tão desejada! Tempo para escrever!


Aprendi de ninguém

“Agora, aqui, ninguém precisa de si”. Cantarola Arnaldo Antunes, na festa, ao final da mesa 17, ou seria 18, 19, no empenho de arrancar alguns sussurros que fosse da plateia, engessada, aparentemente, de “intelectuais”, supostamente.

O que posso fazer sem o outro? Para que preciso do outro? E tanto!

Amarrar os sapatos aprendi com o pai. Cumprimentar as pessoas, com a mãe. Dos irmãos o pedalar na bicicleta, a frear com a borracha no carrinho de rolemã, o ponto certo do arroz, tantas coisas!

Com a tia o gosto pela mortadela no pão de forma. Com as crianças da vizinhança a gostar de picnics (achei que o pic se escrevia separado do nic), aqueles com toalha estendida no gramado do parque. Na cesta, pão com mortadela, que junto com tubaína marcaram minha infância.

Com os professores a rezar e agradecer, se, da Escola Dominical, a obedecer e não resistir se os da escola formal.  A abrir, mas também a fechar a mente. Alguns bons, outros nem tanto, poucos céleres! Raros, os marcantes! A Benedita que me enxugou o pranto aos sete, à Ivani que me despertou para as letras, ao Tonny por me dar a chance! À Rovai: “escreva de novo”.

Mas o tema é o oposto: o que posso fazer sem precisar do outro?

Não aprendi a me defender com meu pai, a falar tudo com minha mãe, a fazer direito com os irmãos - sofríamos juntos pelos erros individuais-, como não aprendi a cozinhar com as tias ou a me soltar, com as crianças. Nem aprendi com o tio a fazer cara de choro.

Quem me ensinou a chorar? Com quem aprendi a sorrir? De onde vem meu libertar? Se os tivesse aprendido!

O que posso fazer sem a existência de alguém?
 
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.

Com a Susana aprenderei a nadar? Com Alcidema a colocar a vírgula no certo lugar?

Pensar, tem o outro. No que penso, para que penso, em quem penso.

Até na intimidade, podendo só eu fazer por mim mesma, necessito do fabricante do papel, da louça e da companhia de saneamento, no mínimo.

Do outro sou refém!